Dias de Melo, um calhetense nas páginas do mundo

José Dias de Melo nasceu na Calheta de Nesquim, a 8.4.1925. Fez os estudos liceais na cidade da Horta, onde se estreou na imprensa e foi um dos fundadores da Associação Cultural Académica (novembro de 1944). Radicado em Ponta Delgada desde 1949, foi professor do Ensino Primário e posteriormente do Preparatório, nível em que também lecionou na Cova da Piedade (1976-1977) e nas Lajes do Pico (1978-1979).

A sua estreia em livro fez-se com os poemas de Toadas do Mar e da Terra (1954), mas logo infletiria para a narrativa com as «crónicas romanceadas» de Mar Rubro (1958). A partir daí, a sua obra construiu-se com uma notória regularidade e também sob o signo da diversidade: da crónica ao romance, do conto à investigação, ao relato de viagem e à recolha etnográfica com vasto recurso ao testemunho oral, como ocorre em Na Memória das Gentes, um notável trabalho em que as vozes individuais se entrecruzam na composição geral de um complexo tecido histórico e social picoense; o contacto com o discurso popular acabaria, além do mais, por projetar-se na escrita de Dias de Melo, na grande fluência de uma voz narrativa transbordante e próxima de procedimentos sintáticos da oralidade. Toda essa diversidade se mantém, no entanto, fiel a um principal núcleo temático, a experiência de vida do homem açoriano, particularmente a do baleeiro picoense, cuja saga individual e histórica proporcionou a Dias de Melo algumas das suas páginas mais dramáticas e pungentes.

Entre a matéria de evocação e a de natureza ficcional, por vezes articuladas de modo indestrinçável, a obra de Dias de Melo dá-nos um vasto quadro da vivência humana numa comunidade rural-marítima fechada, com os seus sonhos e fracassos, as suas intrigas e os gestos solidários, a luta contra as forças da natureza e os interesses sociais; mas, mesmo quando a sua narrativa se expande até ao espaço urbano, deparamo-nos igualmente com um narrador comprometido com a sorte dos mais fracos e das vítimas da engrenagem social. O autor assume, aliás, as suas afinidades com o posicionamento estético e a visão do mundo próprios dos neorrealistas e poderemos ainda detetar a sua proximidade em relação a autores como Caldwell ou Steinbeck; a visita à casa e ao território deste último e das suas personagens deu origem a uma longa e efusiva crónica, «O Santuário de Steinbeck», incluída em Das Velas de Lona às Asas de Alumínio.

A obra de Dias de Melo ocupa hoje um lugar singular no âmbito da literatura açoriana, como o atesta o reconhecimento das gerações que se lhe seguem.”

Faleceu em Ponta Delgada, a 28 de setembro de 2008

Urbano Bettencourt, in http://www.culturacores.azores.gov.pt/

AA/CMLP