Entrevista: João Carlos Leite, da Associação Movimento de Romeiros de São Miguel

Em 2021 são cerca de 2500 homens que ficam em casa, ficando por cumprir uma tradição ancestral que no próximo ano faz 500 anos. 

Falamos da Romaria Quaresmal em São Miguel, onde durante a Quaresma saem à rua os Ranchos de Romeiros para percorrerem, a pé, as ruas da maior ilha dos Açores, cantando e rezando.

Este ano os Romeiros foram novamente impedidos de poder cumprir a sua Romaria Quaresmal, face ao momento que vivemos, por via da Covid-19.

O Jornal AzoresAcores foi ao encontro do responsável pela Associação Movimento de Romeiros de São Miguel, João Carlos Leite, para nos falar do sentimento que se faz sentir junto dos Romeiros.

AA – Devido ao momento que vivemos, as Romarias Quaresmais foram canceladas, uma vez mais. Que sentimento existe no seio dos Romeiros?

JCL – O sentimento generalizado é de nostalgia, de tristeza e de grande respeito pela nossa saúde e pela saúde pública, como Romeiros conscientes não poderia ser de outra forma , mas também de muita esperança em que esta pandemia seja debelada e que naturalmente já no próximo ano consigamos voltar às Romarias Quaresmais.

AA – Em 2020 ainda houve alguns Ranchos que conseguiram andar nas estradas de São Miguel. Mas é preciso andar na estrada para fazer a Romaria Quaresmal?

JCL – As Romarias Quaresmais de São Miguel são na sua essência caminhadas físicas , que atendendo às suas características levam o Romeiro a uma introspeção profunda ,muitas vezes levam a uma verdadeira conversão com a vida , no relacionamento com os outros, consigo próprio, com a Natureza e com Deus….

Vivencia-se a verdadeira essência da vida, relativizando o supérfluo. As Romarias Quaresmais ajudam-nos a melhor superar as dificuldades do nosso dia a dia.

AA – É possível fazer uma Romaria mesmo em casa, no dia-a-dia?

JCL – Claro. Mas é fundamental “recarregar baterias” na caminhada física, atendendo às suas características de tempo (oito dias), disponibilidade mental, convívio com os irmãos, nas famílias de acolhimento, nos propósitos de correção e de mudança de vida.

AA – Sabe-se que alguns ranchos, apesar de não saírem este ano, irão realizar algumas atividades para não deixar passar o momento em branco. Como vê isso?

JCL – Com muita alegria. Sonho que o envolvimento, pastoral, familiar, social e cultural dos Romeiros seja cada vez mais efetivo nas suas vidas e na nossa sociedade, indo ao encontro das diversas propostas do artº 3 (Objeto Social) dos nossos Estatutos.

AA – Nesta época especial que vivemos, que mensagem se pode deixar a todos os Romeiros e a quem os segue?

JCL – Sobretudo de Esperança, mas também de confiança nos cientistas, para que desenvolvam rapidamente o necessário para debelar esta pandemia em todo o Mundo, que os Países ricos sejam solidários com os muito desfavorecidos, de grande apreço pelos profissionais de saúde pela enorme exigência e coragem a que têm sido submetidos. Quando voltarmos a uma nova normalidade que sejamos mais solidários e que valorizemos apenas o que efetivamente nos torna mais Humanos, colocando como premissa mais importante da nossa vida o bem comum, o respeito pelos outros, pela Natureza e por Deus.

AA