Entrevista: Nuno Rodrigues, Mestre do Rancho de Romeiros de São Roque

Como já é do conhecimento, as habituais Romarias Quaresmais da ilha de São Miguel voltaram a não sair à rua. Este ano, ao contrário de 2020, todos os Ranchos de Romeiros ficaram em casa, sem poderem concretizar a sua caminhada anual, percorrendo toda a ilha, a pé, rezando e entoando cânticos anunciando Jesus.

O jornal AzoresAcores foi ao encontro de um dos Ranchos que este sábado sairiam para a estrada, no caso concreto o Rancho de Romeiros de São Roque que, ao contrário da maioria, no ano passado ainda conseguiu fazer a sua caminha anual.

Falámos com o Mestre do Rancho de Romeiros Nuno Rodrigues que nos falou do seu sentimento que acaba por se generalizar a todos os Romeiros do Rancho.

AA – O Rancho de São Roque seria dos primeiros a sair em mais esta Romaria Quaresmal. Em 2020 ainda conseguiu fazer a Romaria. Qual é o sentimento?

NR – É um sentimento difícil de explicar. Temos a sensação que o dia ainda não chegou, mas depois por mais que nos tentemos abstrair, imaginamos os sítios onde estaríamos. Como ainda fizemos a do ano passado este ano tornar-se mais difícil porque é a primeira vez que não saímos em 26 anos. Mas, embora já esteja capacitado que este ano não irei para a estrada, e não tenha nos ombros toda a logística da sua preparação, não deixei de sentir os nervos habituais e as “borboletas no estômago” habituais do dia da saída.

AA- Em 2020 quando acabou a Romaria, e tendo em conta o momento que vivemos, devido à Covid-19, o Rancho terminou as suas atividades, ou houve continuidade?

NR – Nos seguimos as orientações que nos foram dadas. Como ainda se realizaram as Romarias da segunda semana, acolhemos os Romeiros como costume. Depois devido ao encerramento da Igreja foi impossível viver uma Quaresma e Páscoa em pleno. Mas, não ficamos parados.

Para compensar a falta de atividades presenciais, começamos a rezar o terço online, mantendo assim a chama acesa e a união do grupo.

AA – Este ano já era sabido com antecedência que não haveria Romaria Quaresmal, pelo menos a conhecida de percorrer a ilha durante uma semana. O Rancho irá realizar alguma atividade?

NR – Sim, digamos que preparamos um plano B. Iremos realizar como de costume a nossa cerimónia de bênção dos lenços e ato penitencial, faremos no sábado dia 20 uma saída simbólica e uma chegada também nos mesmos moldes, apenas para lembrar e marcar os dias. Temos também em organização caminhadas de oração e meditação pela natureza, nos domingos da Quaresma, por forma a ir tentando compensar o vazio da Romaria de uma semana, cumprindo sempre e respeitando as regras de segurança impostas.

AA- Diz-se que para se sentir o que é ser Romeiro, tem que se fazer pelo menos uma Romaria. Mas é necessário fazer-se essa semana de Romaria para sentir e ser-se Romeiro?

NR – Para se sentir verdadeiramente o que é ser Romeiro temos mesmo que passar pela experiência, sim. Porque é algo que não se consegue explicar. Mas depois de se ser Romeiro somos para toda a vida. Não é a caminhada que nos faz Romeiros, mas sim o modo como vivemos o dia a dia. Ser Romeiro é por em prática tudo que fazemos na semana da caminhada no nosso dia a dia. Isso sim é ser verdadeiramente Romeiro.

Posso fazer várias Romarias físicas e nunca me sentir Romeiro, como posso apenas ter tido essa experiência uma vez e ser Romeiro para toda a vida. Se me permites, é como opinião pessoal costumo dizer: Há quem seja Romeiro e há quem faça Romarias. Quem faz Romarias, faz 1, 2, 3… Eu fiz a minha primeira Romaria há 26 anos e ainda não a terminei, e provavelmente apenas farei uma na minha vida.

AA – Nesta época especial que vivemos, que mensagem se pode deixar a quem segue as Romarias?

NR – Para os irmãos que não fazendo a caminhada física nos acompanhavam com as suas orações e apoio, quer alimentar quer logístico, deixo a seguinte mensagem. Nessa altura em que muitas famílias estão a passar necessidades, que canalizem a sua ajuda para eles, porque Deus está em todos, não apenas nos Romeiros. Para nós irmãos Romeiros caminhantes, que tomemos todas as medidas de segurança pessoal e coletiva para que para o ano contiguamos fazer ecoar pelos vales da nossa ilha o canto da Ave Maria.

AA