Entrevista: Sílvia Rainha – Romarias Quaresmais

Em 2021 ficou-se por cumprir uma tradição ancestral na ilha de São Miguel. Falamos claro das Romarias Quaresmais, onde durante a Quaresma saem à rua os Ranchos de Romeiros para percorrerem, a pé, as ruas da maior ilha dos Açores, cantando e rezando. Durante esta semana, os Irmãos Romeiros são acolhidos, na sua maioria pelas pessoas das várias freguesias por onde passam.

Este ano os Romeiros foram novamente impedidos de poder cumprir a sua Romaria Quaresmal, face ao momento que vivemos, por via da Covid-19, mas também quem os acolhe, viu-se privado de tão majestoso privilégio.

O Jornal AzoresAcores foi ao encontro de uma família que, anualmente,  acolhe Romeiros em sua casa, para tentar perceber o porquê deste ato tão nobre e como foi ficar mais um ano de “casa vazia”.

Falámos com a Irmã Sílvia Rainha, moradora em Santo António, Ponta Delgada. É  Mestre do Rancho de Romeiras das Capelas há 17 anos, sendo o seu marido Romeiro há 18 anos, família que acolhe durante a Romaria Quaresmal mais de 40 Romeiros em sua casa.

AA- 2021 foi mais um ano não para as Romarias Quaresmais em São Miguel, pelo menos na sua essência de percorrer a ilha a pé durante a Quaresma. Como família que acolhe em sua casa os Romeiros, como foi passar estes dias sem os Irmãos Romeiros?

SR – Este foi um ano diferente! A Quaresma, para nós, Micaelenses, sente-se e vive-se com o ressoar dos cânticos dos Romeiros, com a tradicional Ave Maria, de tom, por si só, melancólico e triste, ver aqueles grupos de homens percorrer as ruas, muitas vezes debaixo de chuva, de cabeça baixa cantando e rezando, que nos lembra perfeitamente que estamos em tempo quaresmal, tempo de jejum, abstinência e oração.

É um tempo “estranho”, que quase não lembra a Quaresma, sentimos a falta de ouvir, mesmo que ao longe, o eco dos Romeiros, a azáfama da preparação da casa e das refeições para os receber. Quando me era possível, tirava o dia para ficar em casa a preparar tudo, ou levantava-me muito cedo para deixar preparadas algumas coisas. Sentimos a casa vazia. Falta o calor da amizade, partilha e caridade. Para nós é uma bênção poder acolher irmãos Romeiros. É com nostalgia e lágrima no olho que recordo este tempo.

AA – Em 2020 apenas os ranchos saíram na primeira e segunda semana. Ainda conseguiu acolher algum Rancho de Romeiros? Quantos?

SR – Sim, ainda conseguimos a graça de acolher três Ranchos de Romeiros: Várzea, São Roque e Ribeirinha. No nosso caso, depende do número de Ranchos que acolhemos. Por norma, acolhemos sempre quatro irmãos de cada, e em média cerca de dez a doze Ranchos em cada ano, logo recebemos sempre 40 e muitos irmãos em casa.

AA – O que a leva a acolher estes “irmãos”, e desde quando é que o faz?

SR – Faço-o desde muito jovem. O meu irmão foi pela primeira vez de Romeiro com 12 anos, tinha eu 11, e desde aí recolhíamos sempre todos os anos na casa de minha mãe. Depois passei a acolhê-los na minha casa até aos dias de hoje.

Mesa preparada para a refeição dos Irmãos Romeiros

AA- Com o passar dos anos, criam-se certamente laços. O acolhimento é feito aleatoriamente, ou já existem irmãos, digamos “fixos” na pernoita?

Por norma, não gosto de escolher irmãos romeiros, para mim são todos iguais. Costumo sempre dizer ao Irmão Mestre, são quatro, e o Irmão Mestre do outro Rancho decide quem vem. Não obstante, e como já o faço há muitos anos, acabamos por acolher sempre algum irmão, mesmo aleatoriamente, que já pernoitou em anos anteriores em nossa casa. É normal que se criem laços, depois de vários anos, e sabemos que há irmãos que se sentem mais à vontade em certas casas por já conhecerem ou já lá terem estado, e isso faz com que se acabe por acolher quase sempre os mesmos irmãos.

Lembrança de um Romeiro

AA – Durante estes anos de acolhimento de romeiros, existe alguma história ou momento que a tenha marcado e que nos possa contar?

SR – Nós temos um lema que é: Tudo o que acontece e falamos entre nós em casa, guardamos apenas e só para nós! É o nosso espírito de Romaria e de ser Romeiro, companheirismo e compreensão. Mas posso dizer que tenho inúmeras histórias, que vão desde momentos de bom humor, histórias tristes de vida, situações de doenças, serões a cantar e a rezar, tratamentos de feridas nos pés que até me custam lembrar, ter de ir comprar coisas de última hora para os ajudar na caminhada do dia seguinte, são muitos os momentos que recordamos com muito carinho. Recordo, com muito apreço, um irmão que aos anos que o acolhemos em casa, acompanhou o crescimento do meu filho desde os seus um ou dois anos de idade até hoje, ano que já faz dezoito anos. São amizades para a vida.

AA – Para terminar, que mensagem gostava de deixar, especialmente aos “Irmãos Romeiros”.

SR – Que não percam a esperança de dias melhores. Só quem tem o privilégio de vivenciar esta experiência, sabe o que ela significa e a falta que aquela semana faz. E que estes momentos menos bons, em que estamos privados de quase tudo, sirvam para refletirem e que possam dar sempre o seu melhor a cada dia que passa.

AA