Lagoa: 499 anos de Vila – as origens!

Comemorar 499 de elevação a Vila e Sede de Concelho só é possível, diacronicamente, através de um puro e cuidado estudo pelos meandros da História da Lagoa. Celebrar determinada coisa sem se saber a que coisa se refere, não fará só pouco sentido, como será ignorância.

Em 499 anos de história muito há, com certeza, a desvendar. Muito por dizer. Muita gente a descobrir e, ainda mais, desconhecidos anónimos, a revelar. Mas não posso deixar de lembrar, neste dia, a figura de Rodrigo Afonso e de Álvaro Lopes do Vulcão.

Rodrigo Afonso foi um dos colonizadores da Lagoa, no início do seu povoamento, e o fundador ou instituidor da fábrica menor da Igreja de Santa Cruz. Embora ignorando-se a data da fundação da actual Matriz de Lagoa, sabe-se que Rodrigo Afonso, que veio para a ilha de São Miguel no início da sua colonização, em companhia de Gonçalo Vaz, foi o instituidor da fábrica menor daquela Igreja, legando-lhe, assim, “sessenta e e dois e meio alqueires de terra lavradia, sita no Pico da Pedra, hoje conhecida por terras de Santa Cruz”.

Já Álvaro Lopes do Vulcão edificou uma ermida, a ermida de Santa Maria do Rosário, no antigo lugar do Porto dos Carneiros, exactamente disposta onde hoje se encontra a igreja paroquial, tendo escrito, em testamento datado de 17 de Maio de 1543, que a dita ermida fora edificada por ele, querendo ser nela sepultado.

Álvaro Lopes do Vulcão vem referenciado como um dos ilustres na obra do padre João José Tavares, tendo vindo da ilha da Madeira. Casou com Mércia Afonso, filha de Francisco Anes da Praia, de Vila Franca do Campo, homem muito honrado e rico.

Por alvará régio de 5 de Abril de 1593, e carta do bispo D. Manuel de Gouveia, datada de 27 de Setembro de 1593, a ermida foi elevada a paróquia, aquando da elevação a paróquia do lugar do Porto dos Carneiros, servindo, portanto, a dita ermida como igreja paroquial e tornando-se independente da igreja de Santa Cruz.

Duas figuras muito ancestrais na história da Vila da Lagoa, mas muito preponderantes. Ora, essas duas figuras, um preponderante na edificação de uma Igreja, em Santa Cruz, e o outro, ancestralmente, primitivamente, preponderante na fixação de uma estrutura religiosa no “Lugar do Porto dos Carneiros”, que passaria posteriormente a paróquia autónoma de Santa Cruz por carta de 1593.

Mas, antes, a Lagoa compunha-se de três freguesias, a saber: Santa Cruz, que era a Matriz, Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora dos Anjos. Esta última era, aliás, a única do extinto concelho de Água de Pau. O padre J. J. Tavares diz-nos que, juridicamente, a Lagoa compreende duas freguesias [que correspondem às freguesias a que, juridicamente, corresponde a cidade de Lagoa dos dias de hoje]: Santa Cruz e Nossa Senhora do Rosário, sendo que o concelho abrange, todavia, os habitantes do lugar dos Remédios, Atalhada, Água de Pau, Cabouco e Ribeira Chã.

Assim, descoberta a ilha de São Miguel, foram lançados carneiros, sabe-se, nas proximidades do sítio que ficou com o nome de Porto dos Carneiros, onde, depois, os primeiros povoadores os encontraram com grande propagação. A Carta Régia de 2 de Julho de 1439 alude ao facto do Infante D. Henrique ter mandado lançar ovelhas nas sete ilhas dos Açores [Archivo dos Açores, vol. 1º, pág. 5]. Naquela data, pelo menos, já o litoral era conhecido.

Segundo Fructuoso, os primeiros colonizadores que foram para a Vila da Povoação, passados dez meses, retiraram-se dali para o Porto dos Carneiros, onde se estabeleceram. Depois dos antigos povoadores estarem na Povoação Velha dez meses, não lhes contentando o sitio das terras se passaram para este Porto dos Carneiros onde fizeram sua habitação [Fruct. L. 4. Cap. 42].

Podemos, assim, concluir que a chamada Vila da Povoação tomou este nome por ali chegarem os primeiros colonos, onde permaneceram apenas dez meses e que o lugar imediatamente povoado a seguir foi, com certeza, a Lagoa, pelos mesmos, precisamente, que foram à Povoação e que não quiseram lá ficar.

Fructuoso ainda refere, citado pelo padre João José Tavares, que Gonçalo Vaz, o Grande, veio povoar esta ilha por mandado do Infante D. Henrique e achou estes carneiros discorrendo a costa. Veio Gonçalo Vaz no princípio da colonização desta ilha e foi o pai do primeiro homem que aqui nasceu. Em sua companhia veio também Rodrigo Afonso que teve, de dados, quinze moios de terra, acima do lugar de Rabo de Peixe, onde é o Pico da Pedra.

Já no chamado Porto dos Carneiros, onde foram parar, como acima de escreveu, era natural, diz-nos o padre João José Tavares, procurarem local onde houvesse água potável. Encontraram-na, assim, a pouca distância, para leste, na antiga lagoa que deu nome à vila e em umas nascentes que fica à beira mar, ao sul da Igreja Matriz e que se prologam até à entrada duma grota, que por isso se chama grota das fontainhas.

Ali se estabeleceram. Por ali se principiou o povoamento da Lagoa.

É, por carta de D. João III, que se cria a Vila da Lagoa. Carta esta datada de 11 de Abril de 1522. Já o chamado Lugar do Porto dos Carneiros é elevado a Paróquia por carta de 1593.

Foi o dito concelho extinto por Decreto de 10 de Dezembro de 1867, ficando a freguesia de Água de Pau pertencendo ao Concelho de Vila Franca do Campo e as de Santa Cruz e de Nossa Senhora do Rosário ao Concelho de Ponta Delgada. Por Decreto de 14 de Janeiro de 1868, foi-lhe restituída autonomia, ordenando o Governador Civil de Ponta Delgada, em ofício de 5 de Fevereiro do mesmo ano, que a Câmara [de Lagoa] entrasse no exercício das suas funções.

A Vila da Lagoa foi elevada ao estatuto de cidade, pelo decreto legislativo regional nº17/2012/A.

Por: Júlio Tavares Oliveira