Manuel de Arriaga (1840-1917)

Foi advogado, professor, poeta, escritor, deputado, vereador, reitor e Presidente da República. Manoel José de Arriaga Brum da Silveira e Peyrelongue nasceu na cidade da Horta, em 8 de Julho de 1840. Filho de Sebastião José de Arriaga Brum da Silveira e Peyrelongue, oriundo de famílias aristocráticas e descendente de flamengos que se radicaram na Ilha do Faial no séc. XVII e de Maria Cristina Ramos Caldeira de Arriaga, natural de Lisboa, também descendente de nobres.

Foi batizado na Igreja do Santíssimo Salvador (16Dez1840), tendo por padrinhos José Curry Cabral e sua mulher, Bárbara Street Cabral.

Manuel de Arriaga, e os seus oito irmãos: Maria Cristina (1835); Sebastião (1837); Maria Amélia (1838); João (1842); José (1844l; Mariana (1846); Miguel (1847) e Adelaide Sofia (1854), tiveram uma educação em casa, com uma perceptora norte americana. Liam Lord Byron, Victor Hugo, Lamartine, entre outros. Sabe-se que frequentavam o teatro, bailes, serões de música e de poesia e passavam o verão na casa do Guindaste, na ilha do Pico.

Frequentou a Universidade de Coimbra entre 1859 e 1866, onde conheceu Silva Gaio, Antero de Quental, Teófilo Braga, Eça de Queiroz e Anselmo Andrade. No convívio com este grupo – a futura Geração de 70 -formou a sua consciência política e conheceu os grandes ideais do republicanismo que o marcou para a vida. Em nome destes valores afastou-se da Família, determinado a viver segundo princípios que aquela não partilhava. Trabalha para suportar os estudos.

Casa com Lucrécia Furtado de Melo (14 Maio 1874), filha de Roque Francisco Furtado de Melo, político e militar, natural de S. Roque, ilha do Pico. Têm seis filhos.

Em Lisboa, Manuel de Arriaga participou das célebres reuniões do Jardim de S. Pedro de Alcântara e o seu nome consta do programa das Conferências Democráticas do Casino Lisbonense. Trabalhou como advogado e professor de inglês no Liceu de Lisboa. Republicano convicto, recusou o convite do rei D. Luís para mestre dos jovens príncipes.

Manuel de Arriaga integrou a corrente federalista republicana, o sector mais radical do movimento. Em 1880, esteve ligado ao Centro republicano Federal e mais tarde ingressou no Clube Henriques Nogueira. Participou ativamente em reuniões e congressos com vista a unificar as diferentes correntes republicanas: neste âmbito, escreveu o Projecto de Organização Definitiva do Partido Republicano (1882), que sistematiza o ideário republicano e estipula a estruturação interna do Partido. Fez parte do 1º Diretório eleito, em 1883.

Foi vereador da Câmara Municipal de Lisboa em 1886-87.

Imbuído de uma profunda fé nos seus ideais, Manuel de Arriaga multiplicou a sua presença em comícios e conferências, em que denunciava aquilo que considerava os erros da Monarquia e da Igreja, propondo como alternativa a democracia e a soberania do povo.

No período “quente” que se seguiu ao Ultimatum Inglês chegou a ser preso por falar à multidão, quando os comícios estavam proibidos. As suas conferências, proferidas em vários clubes republicanos, versavam, entre outros temas, a exploração do povo pelos poderes régios e eclesiásticos, as perseguições ao Partido Republicano, o significado da soberania popular e as vantagens do regime democrático.

Mas o protesto de Manuel de Arriaga subiu também à tribuna do Parlamento. Eleito deputado pelo Funchal, em 1882-84 e por Lisboa em 1890-92, não hesitou em afirmar que a monarquia era a causa de todos os problemas financeiros da nação e que estes só seriam ultrapassados com a implantação de um regime democrático, modesto e sóbrio, mais adequado às circunstâncias em que então se vivia.

Acompanhado pela irmã e cunhado, visita, no verão de 1887, a Madeira e os Açores, tendo subido, entre 9 e 10 de Setembro ao Pico. E escreve “Canto ao Pico”, pequena brochura com um conjunto de IX poemas anotados, dedicados a cada etapa do percurso realizado.

Em 1898 pediu a resignação do cargo de presidente do Directório do Partido Republicano Português, por se sentir desiludido com as ambições e a visão limitada dos homens, cansado das intrigas e dos conflitos entre os seus correligionários. Entendeu que “o mundo estava longe de ser como ele o sonhara”.

Optou por se afastar da militância política, entre 1899 e 1907, e dedicou-se sobretudo à publicação das suas obras literárias em prosa e em verso e à sua atividade de advocacia. Após o 5 de Outubro de 1910, foi nomeado Reitor da Universidade de Coimbra (18 Outubro 1910) e, pouco depois, tornou-se Procurador-Geral da República e deputado da Assembleia Constituinte (Julho 1911).

O seu nome foi proposto por António José de Almeida para a presidência. Manuel de Arriaga era um histórico do Partido, há muito afastado das lides partidárias e por isso longe das disputas pessoais internas, conhecido pela sua força de carácter, sentido de honra e defesa, desde sempre, dos valores republicanos. Aceitou regressar à vida política activa porque acreditou prestar um serviço à Pátria e ao regime que ajudara a implantar.

Foi eleito Presidente da República Portuguesa a 24 de Agosto de 1911.

A instabilidade política marcou os primeiros anos do novo regime com a questão religiosa e a conflituosidade a agudizarem-se e com os republicanos a dividirem-se em várias fações. Não tendo o Presidente o apoio do grupo Afonso Costa, que possuía a maioria na Assembleia, tornou-se-lhe impossível formar governos de extrapartidários que pudessem agradar a todos. O resultado foi a pluralidade de ministérios que passaram pelo poder, uns apenas dois dias, outros alguns meses, difundindo-se entre a população o sentimento de crise. Para tanto, contribuíram as greves operárias, as bombas a explodir em Lisboa, as incursões monárquicas no norte do país, a deflagração da Grande Guerra e a rivalidade acesa entre os republicanos. Todos estes problemas originaram uma situação política insustentável que culminou na ditadura militar de Pimenta de Castro e num golpe revolucionário conhecido como 14 de Maio de 1915. Tendo vencido a fação republicana de Afonso Costa, que não apoiava Manuel de Arriaga, este pediu a sua demissão a 26 de Maio de 1915, afastando-se definitivamente da vida política.

Dedica-se a escrever “Na primeira Presidência da República Portuguesa. Um rápido Relatório” que publica (Maio 1916).

Morre (5 de Março 1917), “esquecido e ignorado pela República que ajudara a implantar, apodado de traidor e criminoso por alguns, mas recordado com carinho por muitos outros que não haviam esquecido o carácter honrado e a obra democrática do grande orador dos tempos da propaganda republicana”.

O seu nome é escolhido pelo Governo para patrono do Liceu da Horta (12 Junho 1918).

Sepultado no Cemitério dos Prazeres (6 Março 1917), foi merecedor de honras de Panteão Nacional (16 Setembro 2016).

O seu nome parece ser o mais recordado na toponímia em Portugal. Manuel de Arriaga fica perpetuado na sua cidade da Horta: além de patrono da atual Escola Secundária e da AAALH, o Solar dos Arriaga, onde nasceu, é desde 2011, a “Casa Manuel de Arriaga”, uma casa memória e integra o Museu da Horta; a sua estátua encontra-se no centro do Largo Manuel de Arriaga; e existe a oferta de um Passeio pela Horta no tempo de Manuel de Arriaga que integra os “Roteiros Culturais dos Açores”, no domínio Personalidades, acessível aqui: http://www.culturacores.azores.gov.pt/…/201222154757.pdf

AA/CAL