Quão difícil é ser jornalista

Não é fácil ser jornalista. Para perceber a dimensão desta dificuldade basta ler e ouvir o que os jornalistas já divulgaram sobre o caso do jovem estudante universitário português que está a ser apresentado como suspeito de atividades terroristas em Portugal. Ou até ler e ouvir o que já se escreveu e disse sobre o recente jogo de futebol entre o Porto e o Sporting que degenerou em múltiplos atos de violência.

Um jovem adulto de 18 anos, a sair da adolescência, tímido e medroso nas palavras do avô paterno, recém ingressado numa Universidade em Lisboa, cidade para onde se mudou ido de uma aldeia do centro do país, é detetado pelo FBI nos corredores mais escuros da Internet e, numa semana, identificado e detido pela Polícia Judiciária portuguesa na posse de facas, dardos incendiários, materiais combustíveis, um martelo (instrumento que uma televisão incluiu no rol das armas proibidas) e um plano de ataque à Faculdade onde estuda.

Na sequência desta notícia bombástica, quase no verdadeiro sentido da palavra, soube-se que o candidato a primeiro terrorista português na categoria das chacinas indiscriminadas era viciado em vídeos de assassínios em escolas e teria sido, na adolescência, bombo de festa dos colegas, ou seja, vítima de “bullying”, um fenómeno de intimidação sistemática vexatória.

Uma notícia com este impacto social e esta complexidade de aspetos potencialmente relevantes exige que os jornalistas a abordem com distanciamento e profundidade, sem descurar qualquer dos ângulos que podem e devem ser tidos em conta, o que torna particularmente difícil o exercício desta profissão. Isto é válido também para a abordagem jornalística à violência que marcou o final do recente jogo de futebol entre o Porto e o Sporting.

Neste caso importará não esquecer os condicionamentos que marcam o regresso das multidões aos estádios de futebol, após os confinamentos pandémicos, e o facto de Portugal continuar a ser um país com uma elevada percentagem da população cuja principal e às vezes única alegria só ocorre quando o clube que apoiam ganha um jogo, um campeonato ou uma taça. Também aqui se realça a dificuldade em ser jornalista.

Em sociedades assim a desinformação cresce com mais facilidade.

Opinião: por Júlio Roldão

Júlio Roldão, jornalista desde 1977, nasceu no Porto em 1953, estudou em Coimbra, onde passou, nos anos 70, pelo Teatro dos Estudantes e pelo Círculo de Artes Plásticas, tendo, em 1984, regressado ao Porto, onde vive.

AA/API