Romarias quaresmais voltam a não sair à rua em 2022

As romarias quaresmais de São Miguel voltam a não sair à rua na próxima Quaresma, pelo terceiro ano consecutivo, justamente na data em que cumpririam 500 anos desde o inicio da sua realização.

A decisão foi tomada em assembleia geral extraordinária da Associação do Movimento de Romeiros de São Miguel, que esteve reunida em Vila Franca do Campo.

“Irmãos, o sentimento é de profunda tristeza, simultaneamente dever de cidadania, grande humanidade e sentido de responsabilidade, que após partilha aberta e franca de um elevado número de responsáveis, que por maioria decidiram não realizar as romarias quaresmais no próximo ano”, anuncia a página on-line do movimento.

“Após uma longa e intensa discussão, ficou decidido por maioria que no próximo ano de 2022 não haverá romarias”, esclarece a mesma página.

É o terceiro ano consecutivo que as romarias não percorrem as estradas de São Miguel em virtude da pandemia. Em 2020, os primeiros ranchos ainda saíram mas logo na terceira semana os ranchos foram impedidos de percorrer as estradas de São Miguel, tendo as romarias sido suspensas. Este ano não saiu qualquer rancho e, para o ano, também não sairá, segundo a decisão tomada este sábado.

Cerca de 2500 homens ficam assim impedidos de cumprir uma das mais ancestrais tradições penitenciais da Quaresma em todo o país, em que grupos de homens percorrem a pé a maior ilha do arquipélago durante uma semana, do nascer ao por do sol, dormindo e comendo apenas daquilo que a caridade lhes dá.

As romarias quaresmais são uma das realidades mais vivas da tradição da religiosidade popular açoriana. Começam no primeiro sábado da quaresma, prolongando-se até à quinta- feira santa, e durante oito dias, grupos de homens percorrem a ilha de São Miguel (na Terceira são apenas cinco dias), sempre a pé, do nascer ao por do sol, rezando em busca do perdão e da redenção.

Unidos pela fé, agarrados a um terço e a um bordão, percorrem no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, todos os “templos” de pedra dedicados ao culto mariano.

Os ranchos de romeiros, que agora também já existem na ilha Terceira e na Graciosa, bem como no Canadá e nos Estados Unidos, remontam a 1522 e 1563, data de grandes erupções vulcânicas e tremores de terra que destruíram Vila Franca do Campo e Ribeira Grande, respetivamente.

Os romeiros são verdadeiros peregrinos penitentes que através da caminhada procuram a conversão pessoal e espiritual.

Os ranchos são compostos apenas por homens, embora já existam grupos de mulheres que se organizam da mesma forma, nomeadamente em São Miguel e na ilha Terceira.

O Movimento de Romeiros de São Miguel tem feito uma aposta na formação espiritual destes peregrinos estimulando-os a um verdadeiro compromisso com a vida comunitária ao longo do ano.

Os Romeiros de São Miguel já possuem uma Casa, na Lagoa, onde fazem algumas das suas reuniões diretivas e promovem o espólio museológico das romarias.

AA/IA